Proposições sobre Natureza e Graça extraídas de Franciscus Junius
Por Brandon Corley
Definições Gerais
Natureza refere-se ao “princípio, ordenado por Deus, de movimento e repouso em seu próprio sujeito natural, segundo seu próprio modo.” Fonte: Jacobus Arminius: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian ....
Tudo o que diz respeito ao fim natural do homem deve ser atribuído à natureza.
Graça, por outro lado, me parece ser tudo aquilo que está acima disso, operando por um modo sobrenatural. Ou seja, qualquer coisa concedida ao homem mediante poder sobrenatural que o eleve acima de seu fim natural e o conduza ao seu fim sobrenatural é referida como graça.
Fim Natural e Fim Sobrenatural
O fim natural do homem é que ele “se aproxime muito do Divino” (Junius em Beyond Dordt and De Auxiliis, p. 144) e tudo o que estiver ordenado para esse fim pertence à natureza. Isso consiste em uma felicidade natural em Deus. O homem desfrutaria de seu fim natural em um estado de pura natureza, por meio de um conhecimento natural e de um amor natural a Deus.
O fim sobrenatural do homem é a visão beatífica e tudo o que estiver ordenado para esse fim pertence à graça. Isso consiste em uma felicidade sobrenatural em Deus e, portanto, em um conhecimento sobrenatural e em um amor sobrenatural (caridade) a Deus. Chamamos isso de fim do homem porque é um fim ao qual Deus conduz alguns homens por meio de Sua providência, não porque seja um fim intrínseco à natureza humana.
“À natureza não depravada, pertencia sua própria felicidade natural futura, embora ela fosse depois, por assim dizer, absorvida, pela graça de Deus, em uma felicidade sobrenatural.”
(Junius, ibid.)
Adão e o Estado de Pura Natureza
Adão foi criado, inicialmente, em um estado de pura natureza, isto é, criado sem graça. Porém, a esse estado de pura natureza foi então acrescentada a graça, chamada de donum superadditum:
“Você afirma: ‘que nenhum homem jamais foi criado em um estado meramente natural.’ Se você quer dizer que ele foi criado sem dotes sobrenaturais, não vejo como isso possa ser provado (embora muitos façam essa afirmação). A Escritura não declara isso em parte alguma. Mas você não ignora que se diz nas escolas que um argumento negativo de autoridade, tal como ‘não está escrito, logo não é verdade’, não é válido. A ordem da criação, sob certo aspecto, comprova [que é assim], pois o corpo foi primeiramente feito do pó, e depois a alma foi soprada nele. Qual das duas hipóteses, então, é mais provável? Que a alma, no momento de sua criação, foi dotada de dons sobrenaturais, ou que eles lhe foram acrescentados após a criação? Eu preferiria afirmar que, assim como a alma foi adicionada ao corpo, também os dotes sobrenaturais foram acrescentados à alma. Se Deus agiu dessa forma em relação à natureza, por que não poderia tê-lo feito no caso da graça, que é ainda mais peculiar?”
Fonte: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian Classics Ethereal Library
Nesse estado de pura natureza, Adão era moralmente íntegro e livre de todo pecado e de toda concupiscência desordenada e pecaminosa. A retidão de sua vontade era uma qualidade do seu estado natural, própria dele, embora não fosse algo próprio da natureza humana enquanto tal e, por isso, pôde ser perdida. Essa santidade habitual é a justiça original e é natural ao homem.
“Esse princípio, na criação, sendo reto, santo, não contaminado por qualquer mancha de desejos desordenados, seguia voluntariamente o julgamento do intelecto (que não podia ser enganado por causa da luz inata da verdade), de tal maneira que, sob sua orientação, tanto anjos quanto a humanidade, de acordo com a ordem que condiz à sua natureza e de modo inteligente, queriam os fins e os objetos mostrados pela razão e os realizavam em ato; embora os anjos agissem de modo mais excelente do que os homens, por causa da excelência e simplicidade de sua natureza.”
(Junius em Reformed Thought on Freedom, p. 102)“Os atos ou hábitos, introjetados por aquele princípio, são a justiça, a santidade e a verdade. Justiça, santidade e verdade não são a imagem, mas pertencem à imagem. Voltemos, se lhe apraz, àquele princípio que os Pais estabeleceram: ‘as coisas naturais se corrompem, as sobrenaturais se removem.’ Pode-se, certamente, a partir disso, deduzir com facilidade a seguinte conclusão: — justiça, santidade e verdade não são removidas, portanto, não são sobrenaturais. Além disso, elas se corromperam, logo, são naturais. Se tivessem sido removidas, nenhum de seus princípios elementares existiria em nós por natureza. Mas eles existem; portanto, eles são naturais, e eles próprios se corrompem, e, com eles, tudo o que se origina neles. O mesmo se dá com a imagem de Deus. A imagem de Deus não é removida; não é, portanto, sobrenatural; e, por outro lado, ela se corrompeu; portanto, é natural.”
Fonte: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian Classics Ethereal LibraryAlém disso, Adão possuía um princípio de vida espiritual dentro de si mesmo, enquanto em estado de pura natureza, em virtude do qual ele era capaz de agradar a Deus:
“Havia um modo de vida espiritual em Adão e outro em nós, nos quais somente a graça sobrenatural produz essa vida, enquanto Adão tinha, juntamente com essa graça, a imagem de Deus íntegra e não corrompida e, portanto, tinha vida espiritual em ambos os modos, o natural e o sobrenatural.”
Fonte: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian Classics Ethereal Library
Limites da Natureza e Necessidade da Graça
Aquilo que é natural não pode realizar o que é sobrenatural.
“Pois no homem, mesmo antes da Queda, o intelecto não podia se elevar, transcendendo os limites naturais, a um conhecimento sobrenatural, nem a vontade podia apreender tais coisas, exceto apoiada e sustentada por um auxílio sobrenatural.”
(Junius, Reformed Thought on Freedom, p. 103)
Por essa razão, dizemos que o homem não é naturalmente/intrinsecamente orientado à visão beatífica. Ele não tem um desejo estritamente natural por ela, mas apenas um desejo elicitado em relação a ela (consulte-se a obra de Feingold, The Natural Desire to See God, nesse ponto). A natureza não é proporcional à graça; jamais poderia, por seu próprio poder, elevar-se acima de seu próprio modo natural (Junius desenvolve mais sobre isso adiante). A natureza humana tem apenas uma potência obediencial para a visão beatífica (consulte-se General and Special Metaphysics, de Senguerdius). De fato, não é possível a nenhuma criatura ser naturalmente/intrinsecamente orientada ao sobrenatural (cf. referências abaixo).
Essas conclusões encontram-se mais claras em escritores como Báñez e Voetius, mas são implicações necessárias da posição de Junius.
A Vontade Divina em Relação a Adão
Deus quis que Adão alcançasse a visão beatífica por meios adequados a esse fim, isto é, não apenas por meios naturais, mas também por meios sobrenaturais. É possível, falando de modo absoluto, que Deus pudesse ter permitido que Adão merecesse a vida eterna mesmo sem graça (como diz Escoto: “Deus, em Seu poder absoluto, bem poderia ter aceitado uma natureza capaz de beatificação, existindo em seu estado puramente natural; e, de modo similar, seu ato, para o qual havia uma inclinação puramente natural, Ele poderia ter aceitado como meritório”, ou seja, Deus poderia ter dito: “pratique esta ação natural e Eu o recompensarei com o Céu”). No entanto, considerando que Deus quis meios apropriados a esse fim e exigiu de Adão não apenas obediência natural, mas também sobrenatural (o que se evidencia na nomeação dos animais, que Junius interpreta como um ato profético sobrenatural)...
“Por essa razão, a esse princípio particular de sua natureza foi acrescentado (superadditus) um princípio singular de graça em Adão, pelo qual sua vontade intelectiva atuava, movida singularmente, acima de seu modo natural. Daí aquelas palavras de Gênesis 2,23, anunciadas por aquele espírito profético: ‘Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne.’ Daí também, no mesmo lugar, versículo 20, a imposição de nomes a cada animal individual e muitas outras coisas que o intelecto jamais poderia ter exercido por sua própria perspicácia ou pelas forças de sua vontade natural.”
(Junius, ibid.)
A recepção de graça/o recebimento do Espírito Santo (lembremos que a graça habitual é a forma pela qual somos habitados pelo Espírito Santo), isto é, o donum superadditum, elevou os dons naturais de Adão em direção a um fim sobrenatural.
“De fato, uma vez que nenhum ser humano vivendo segundo a pura natureza teria conhecido a vida e a graça sobrenatural (que conduz à vida) pela lei natural, nem mesmo poderia obtê-la naturalmente, foi necessário que uma lei superior à natureza fosse acrescentada pela graça de Deus... porque Deus, graciosamente, decidiu nos exaltar acima da natureza, para que pudéssemos receber uma perfeição sobrenatural e eterna em Cristo Jesus; também podemos ver que desse Deus, autor e guia, que é o caminho, a verdade e a vida, temos a lei desse caminho, dessa verdade e dessa vida.”
(Mosaic Polity, p. 47-48)“Até mesmo aquela pura natureza em que o primeiro ser humano foi criado não teria garantido tais coisas [as que são sobrenaturais] por sua própria força, mas somente por uma comunicação divina e operação da graça.”
(Mosaic Polity, p. 54)“Adão não podia se elevar acima da natureza, pois havia um limite particular para suas habilidades individuais. Ele de fato se elevaria além desse limite, mas pela bondade da graça sobrenatural, não, porém, pela força de sua própria natureza.”
(True Theology, p. 152)“É necessário que outros princípios, acima da natureza, sejam inspirados por Deus para que possamos conhecer esse fim que está além da natureza, para o qual fomos ordenados, e a verdade que certamente nos levaria a esse fim.”
(Mosaic Polity, p. 52)
Não está explicitamente em Junius, mas parece que a recepção de graça por parte de Adão ocorreu quando ele foi posto no jardim (Gênesis 2,8) e, assim, em aliança com Deus, aliança essa que lhe designou seu fim sobrenatural e os meios pelos quais o alcançaria. Essa é também a visão comum dos Franciscanos.
Propagação dos Dons Naturais e Sobrenaturais
Os dons naturais seriam propagados naturalmente, mas os dons sobrenaturais da graça não poderiam ser propagados de maneira natural. Se Adão fosse transmitir seus dons sobrenaturais, isso seria por um arranjo de aliança.
“Reconheço que Adão e Eva receberam dons sobrenaturais, mas para eles próprios, não para seus herdeiros; nem poderiam transmiti-los a seus herdeiros, exceto por um arranjo geral ou graça especial.”
Fonte: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian Classics Ethereal Library
Pelo pecado, Adão perdeu por completo tanto os dons sobrenaturais quanto a vida espiritual. Seus dons naturais não foram destruídos e totalmente perdidos, mas corrompidos. Ele perdeu a retidão perfeita da vontade na qual foi criado. É por isso que dizemos que a justiça original foi perdida e removida do homem: ainda que os princípios elementares permaneçam como matéria, a forma da retidão perfeita foi perdida.
O homem caído carece de vida espiritual e está totalmente corrompido em sua natureza. Um cristão, ao receber a graça do Espírito Santo, é restaurado à vida espiritual por esse dom sobrenatural, e seus dons naturais são não apenas curados por esse mesmo dom sobrenatural, mas também elevados por ele, assim como os dons naturais de Adão foram elevados por essa graça sobrenatural.
Estados do Homem
1. Um homem em pura natureza (Adão fora do jardim):
Dons naturais íntegros, vida espiritual em modo natural.
2. Um homem sem pecado em graça (Adão no jardim):
Dons sobrenaturais, dons naturais íntegros, vida espiritual em modo sobrenatural.
3. Um homem em pecado sem graça (Adão após a apostasia):
Dons naturais corrompidos, sem vida espiritual.
4. Um homem pecador em graça (Adão ao crer na promessa de Gênesis 3,15):
Dons sobrenaturais, dons naturais corrompidos, porém progressivamente restaurados, vida espiritual em modo sobrenatural.
5. Um homem em glória (Adão agora):
Dons sobrenaturais, dons naturais íntegros, vida espiritual em modo sobrenatural.
Corolários
A habitação do Espírito Santo / a recepção da graça é necessária para a inteireza moral sobrenatural, mas não para a inteireza moral natural ou para a vida espiritual. Isto é, antes de Adão receber o Espírito Santo, ele era moralmente íntegro, podia realizar obras naturais e possuía vida espiritual agradável a Deus, mesmo sem graça, e por isso não podia realizar obras sobrenaturais (às quais não estava obrigado naquele momento).
As virtudes sobrenaturais/teológicas da fé, esperança e caridade são de lei positiva e, portanto, não são ordenadas pela lei natural. Isso é relativamente óbvio, considerando que são “sobrenaturais” em oposição a “naturais”. Elas só são exigidas do homem na medida em que Deus as ordena para um fim sobrenatural, ao qual são ordenadas por natureza. O que a natureza ordena são os análogos naturais dessas virtudes (isto é, um amor natural, uma esperança natural e uma fé natural — esta última, suspeito, ou é prudência, ou algo muito semelhante a ela).
Aqueles que não ouvem o Evangelho não estão sob obrigação de crer nele e, portanto, não estão sob obrigação de possuir virtudes sobrenaturais. Aqueles que o ouvem e o compreendem recebem sempre graça suficiente, embora resistível, pela qual Deus os responsabiliza quando o rejeitam, pois Deus não ordena algo que seja impossível de cumprir por natureza. Deve-se consultar especialmente Domingo Báñez e John Davenant nesse ponto, e essa posição deveria ser mantida entre os Reformados.
A imagem essencial de Deus não é sobrenatural, mas natural. Adão era à imagem de Deus antes e depois de possuir os dons sobrenaturais. Contudo, na medida em que os dons sobrenaturais de Adão elevavam seus dons naturais, podemos falar de uma imagem de Deus relativa.
“A lua tem uma imagem essencial, e outra que é relativa e acidental. Enquanto sua imagem é essencial, ela tem sua própria luz em certo grau; ainda assim, ficaria obscurecida se não olhasse para o sol; enquanto sua imagem é relativa, ela tem luz emprestada do sol, ao ser contemplada por ele e ao olhá-lo. Assim havia, no homem, uma dupla relação da imagem de Deus, já desde a criação. Pois o homem tinha sua própria luz essencial fixada na alma, que brilha como a imagem de Deus entre as coisas criadas; e tinha também uma luz relativa, na medida em que era olhado por Deus e olhava de volta para Deus. A imagem essencial é natural; a imagem relativa era, por assim dizer, sobrenatural, pois olhava para Deus, através da natureza unida à graça, por um movimento particular e livre da vontade; Deus a contemplava pela graça, (pois, que ação de Deus para conosco é natural?) Temos essa luz essencial, corrompida pelo pecado; é claro que não a perdemos. Perdemos a luz relativa; mas Cristo a restaura, para que sejamos renovados, segundo Deus, em Sua própria imagem, e para que a luz essencial seja purificada, uma vez que as coisas naturais se corrompem, as sobrenaturais se perdem, como já dissemos.”
Fonte: Works of James Arminius, Vol. 3 - Christian Classics Ethereal LibraryAfirmamos que a justiça original é natural. Dizemos que o donum superadditum é sobrenatural.
Não devemos equiparar vida espiritual com vida sobrenatural. Um homem pode ter vida espiritual, pela qual agrada a Deus, em um modo natural.
Esses corolários nos guardam do jansenismo e da afirmação de que Deus não poderia ter criado o homem senão em graça. Os erros opostos do romanismo foram tratados aqui: "Se o homem foi criado em graça?" Uma comparação entre a argumentação Reformada e a Tomista.
A principal diferença entre nós e Roma é que vemos a integridade/justiça original e a imortalidade como qualidades naturais (e vemos seus opostos, concupiscência e morte, como preternaturais), enquanto Roma vê essas qualidades como sobrenaturais. Para aprofundar esse ponto, consulte-se especialmente Quodlibet VI, Q. 11, de Henrique de Gent.
Observação Final
Façam uma distinção clara e firme entre a justiça original e o donum superadditum. A primeira é natural, o segundo é sobrenatural. São distintos um do outro. O segundo aperfeiçoa e eleva o primeiro, sim, mas não devem ser equiparados um ao outro.

